
O crescimento da atividade
mineradora e industrial em grande parte da região compreendida pela
Arquidiocese de Mariana, com suas múltiplas consequências, motiva a
presente declaração, por ocasião da celebração do Jubileu do
Senhor Bom Jesus, na cidade de Congonhas. Como Pastor desta porção
do rebanho de Cristo, dirijo-me às autoridades, aos empresários e a
todos os cidadãos comprometidos com o bem comum, reafirmando, à luz
dos princípios éticos e cristãos,
a posição da Igreja em defesa da vida, em favor da preservação do
meio ambiente e da conservação do nosso patrimônio histórico,
artístico, cultural e religioso.
Mesmo
reconhecendo o progresso, impulsionado em grande parte pelo avanço
científico e tecnológico, que gera emprego, renda e recursos
econômicos e financeiros, não podemos desconhecer o risco dos
impactos causados à qualidade de vida de nosso povo, ao meio
ambiente e à preservação de seu precioso patrimônio. Tais
impactos são, muitas vezes, ignorados em nome do desenvolvimento
econômico. Em sua encíclica Populorum Progressio, dizia o Papa
Paulo VI: “o desenvolvimento não se reduz a um simples crescimento
econômico e, para ser autêntico, deve ser integral, isto é, deve
promover o ser humano todo e todos os seres humanos” (cf. PP
14).
O progresso, portanto, deve ser regulado não
apenas pelas leis da economia e do mercado, mas também por
princípios éticos e morais que permitam um desenvolvimento
sustentável, com responsabilidade social. Toda atividade
mineradora e industrial deve ter como parâmetro o bem estar da
pessoa humana, buscando a superação dos impactos negativos sobre a
vida em todas as suas formas e a preservação do planeta, com
respeito ao meio ambiente, à biodiversidade e ao uso responsável
das riquezas naturais. É preciso empregar todos os esforços para
manter viva a natureza, preservar os mananciais e as nascentes,
garantir o habitat dos seres vivos e defender as espécies ameaçadas
de extinção. Com sabedoria ensina-nos o Papa João Paulo II: “A
programação do desenvolvimento econômico deve considerar
atentamente a necessidade de respeitar a integridade e os ritmos da
natureza, já que os recursos naturais são limitados e alguns não
são renováveis” (cf. SRS, n. 26). Além da defesa do meio
ambiente, é de fundamental importância que se garanta o respeito à
vida humana em todas as suas dimensões e em todas as suas fases,
desde a concepção até o seu término natural, e se promova a
“ecologia humana”, conforme a expressão do Papa João Paulo
II.
Diante dos grandes investimentos econômicos que
transformam várias cidades desta Arquidiocese, os cidadãos, por
meio de mecanismos de controle social, como os conselhos municipais,
têm direito a reivindicar melhorias sociais e ambientais, a cobrar
medidas eficazes que atendam às prioridades defendidas pela
comunidade, a exigir que os impostos sejam devidamente aplicados em
sua finalidade e a lutar por medidas que garantam o respeito à
dignidade de todos, com especial atenção aos trabalhadores e suas
famílias. Preocupa-nos, de modo particular, a situação das
famílias forçadas a deixarem suas casas e suas terras (às vezes
sem receberem indenização justa) ou atraídas pela ilusão do
dinheiro da desapropriação. Para defender a vida, medidas urgentes
precisam também ser tomadas em relação às condições das
rodovias e à segurança no trânsito, especialmente nessa
região.
A Igreja Católica é depositária e guardiã
de enorme parte do patrimônio histórico e artístico do Brasil,
cuja preservação é responsabilidade de todos. Na cidade de
Congonhas, a Arquidiocese de Mariana é proprietária de importantes
obras reconhecidas pela UNESCO como Patrimônio Cultural da
Humanidade, entre as quais se incluem as capelas dos passos, as
estátuas dos profetas, o Santuário do Senhor Bom Jesus com seu
entorno e a Praça dos Romeiros. A Igreja tem consciência da
importância histórica, artística e cultural desse acervo, e
reafirma que se trata, antes de tudo, de autêntico patrimônio
religioso, expressão de fé daqueles que edificaram esse lugar
sagrado, espaço privilegiado de manifestações da devoção e
piedade de nosso povo e dos numerosos romeiros vindos de tantas
partes de Minas Gerais, de outros Estados e do exterior. A utilização
desse espaço não é incompatível com a atividade turística, desde
que sejam respeitadas suas finalidades originais e sua destinação
religiosa. A Arquidiocese de Mariana, atenta ao desenvolvimento
dessa região, reafirma que a atividade industrial e a exploração
mineradora devem respeitar esses bens culturais e contribuir para sua
conveniente preservação.
Por intercessão de Nossa
Senhora da Piedade, Padroeira de Minas Gerais, imploramos ao Senhor
Bom Jesus que derrame suas bênçãos sobre todos nós e nos ajude a
promover a vida, a preservar o meio ambiente, a proteger o patrimônio
histórico, artístico, cultural e religioso de Congonhas e demais
municípios desta bela e rica região de nosso Estado, dom de Deus e
obra da criação humana.
Congonhas, 14 de setembro de
2012
Jubileu do Senhor Bom Jesus
Geraldo Lyrio
Rocha
Arcebispo Metropolitano